A Balada da Menina Morta

“Nem o passado existe nem o futuro. Tudo é presente.”
Gonzalo Torrente Ballester
Ela não acreditava que via o futuro, até que a taça se quebrou no brinde de ano novo e a mancha vermelha se espalhou no vestido branco seguindo o mesmo traço que havia se desenhado no sonho. O tecido colou ao corpo revelando os contorno da peça íntima que também sorvia o líquido vermelho sangue.
Vinho gelado nas pernas, mas fogo queimava na cabeça.
A primeira coisa que pensou foi: “merda”, a segunda foi algo um pouco difícil de se pôr em palavras, um ruído de boca aberta que as pessoas fazem (ou devem fazer) quando descobrem que podem ver o futuro em sonhos e que no último sonho haviam visto a própria morte.
O interlocutor a observava espantado, julgando que a preocupação estava apenas no vestido manchado.
“Sinto muito, eu… você se machucou?”.
Foi então que o primeiro pensamento se tornou verbo:
“Merda” disse ainda de olhos vidrados. “Puta merda!”.
Deixou os restos de cacos caírem e correu para o carro. No sonho estava deitada no salão com a mancha de vinho no vestido e estava morta. Mas havia algo mais. Ninguém morre por sujar um vestido. Estava em choque estava… ficando louca? Precisava sair dali, precisava… desesperadamente… mudar o futuro. Como se não bastasse vê-lo.
Atrapalhou-se com as chaves e o alarme disparou fuzilando seus ouvidos.
“Abre porra!” berrou para o estacionamento vazio. “Abre!”.
O sonho era a resposta, o sonho havia revelado o futuro, só nele poderia encontrar a peça que alteraria tudo. Os olhos estavam cheios d’água, a vista embaçada. Parecia ver vermelho, ver vinho em todo lugar. Suava muito e tudo parecia grudento.
“Esqueça isso, burra, concentre-se no sonho!”.
Havia algo mais, tem que haver! Ninguém vê o futuro por nada, precisava se concentrar. A única razão possível para se ver o futuro era a de poder alterá-lo. Não é?
“É” havia uma música!
“Sim, Música!”.
Era uma balada, não lembrava a letra, não lembrava a merda da letra. Como era enervante. Sabia que era importante mas tinha na cabeça só a maldita melodia.
“Na-na-na-na-nã” cantarolou sabendo que era importante, mas a letra não vinha. Era uma música antiga que falava de…? De… sangue!
“É!” gritou enquanto esfregava o rosto. Tudo grudento, tudo…
“Esqueça Isso !”.
Deu a partida e seguiu para a rua. Ao endireitar na pista respirou profundamente e diminuiu a velocidade. Não queria sair do fogo e cair na frigideira. Nada de acidentes essa noite, por favor. Parou no sinal vermelho sentindo-se muito, muito cansada. O tecido se colava no corpo, tudo grudento no meio das pernas, tudo…
“Na-na-na-na-nã”. Novamente e nada.
E se não puder mudar o que está pra acontecer? E se o sonho ou visão ou seja lá o que for, não significar absolutamente nada. Um erro cósmico, uma falha de merda! Tão cansada, tão difícil pensar tão… não havia bebido tanto, no entanto o mundo estava se apagando aos poucos como se a energia estivesse… sumindo?
“Fluindo” disse com a boca mole. “Fluindo”.
“Na-na-na-na-nã… na-na-na-na-nã”.
Segundos antes de perder a consciência percebeu duas coisas. Tudo na câmera lenta dos sonhos. A primeira foi o grosso filete de sangue que escorria do pulso aberto por um pedaço da taça de cristal. O líquido pastoso fluía até o cotovelo onde gotas gordas pingavam. A segunda e mais assustadora: que iria se esvair em sangue antes que alguém pudesse encontrá-la.
Hugo Máximo
Tirado do blog Hugo para Iniciantes.
Imagem do blog Borderline Stupid Girl