Além do Abraço – parte 1

1 – O despertar de uma longa viagem

 

- Medíocre! – essa foi a primeira palavra e logo depois a primeira porrada de uma nova fase na minha vida.

Quem me batia era um senhor de uns dois metros de altura, pelo menos era como parecia para mim, ali, deitado no chão. Um homem de cabelo longo e cinza, solto e escondido no topo por uma cartola.

Elegantemente vestido de smoking preto, com uma camisa tão branca que chegava a brilhar. Corte italiano, se não me engano, e uma irritante bengala preta com um dragão de prata esculpido na ponta, que naquele exato momento estava batendo na minha cara.

- Levante deste chão imundo, cão! – já que tinha insistido com tanta delicadeza, levantei.

Somente naquele instante vi a situação ridícula em que eu me encontrava, usando um vestidinho rosa de babados, estilo bailarina, todo sujo de lama.

Mesmo com a minha visão oscilando pude perceber que estava em uma espécie de masmorra medieval, toda de pedra. Com uma grande e pesada porta de madeira que estava atrás do homem. Ele era a única coisa que me separava da saída, mas eu nem mesmo pensei em fugir.

Meus sentidos estavam totalmente alterados, além da visão turva, minha noção de espaço era quase nula e um sentimento descontrolado estava se apoderando do meu corpo, quando ouvi um grito surdo vindo de trás de mim.

Virei-me para aquele barulho como se estivesse enlouquecendo de curiosidade, quando vi a menina mais branca do que a neve e de cabelo preto como carvão, para mim eu realmente estava vendo a Branca de Neve, mas ela estava nua.

Seus braços estavam presos atrás de seu corpo deitado no chão, assim como as pernas e a boca amordaçada por um pano bem vermelho. Seus olhos pareciam pedir clemência.

Sua pele parecia seda, macia e sem nenhuma marca, nem mancha. Eu podia até mesmo ouvir seu coração batendo descompassado e o sangue nas suas veias correndo como loucos de um perigo. Ela estava com muito medo, eu sabia disso e gostava. Ela estava com medo de mim.

Enquanto eu me deliciava com a visão, o senhor grisalho foi até a moça, puxou a cabeça do dragão de sua bengala, revelando um pequeno punhal escondido. Ele lentamente passou aquela lâmina no antebraço esquerdo da moça, ela gritava amordaçada, e eu senti pela primeira vez o prazer de ver uma pessoa chorando das duas formas mais bonitas do mundo, pelos olhos em forma de lágrimas e pelas veias em forma de sangue.

O sentimento descontrolado no meu corpo foi aumentando e quando vi estava debruçado sobre a moça, sugando o sangue que saía do seu braço com voracidade, até seu coração parar. E quando terminei fui aplaudido pelo distinto cavalheiro que assistiu a tudo num deslumbramento fúnebre.

A sensação seguinte foi a de satisfação e poder, e pude notar que não havia nada de errado nisso, portanto fiz o que uma pessoa de educação faria, agradeci as palmas com uma reverência.

Daquele momento em diante percebi que havia me tornado um ser das trevas, uma criança da noite e esse pensamento me agradou, até mesmo me envaideceu. Ter aquele senhor me olhando sugar a menina me encheu de orgulho, gostei de ser o centro das atenções, e era como se minha vida de humilhações e miséria tivesse passado e agora só existia aquele ser poderoso, como se fosse meu destino glorioso estar ali.

- Meu nome é Albert, bem vindo ao meu mundo senhor Groher! – o cavalheiro ergueu seus braços para mostrar para mim um novo mundo, um novo eu.

Então eu disse a primeira coisa depois que havia sido transformado:

- Foi um prazer!

Minha cabeça era um turbilhão de perguntas e questões, como eu tinha chegado ali era uma delas. E claro, o que tinha acontecido com a minha família. Mas, eu não perguntei nada, deixei que Albert, o mestre de cerimônias, conduzisse todas as etapas do caminho.

Meus sentidos haviam voltado ao normal, e vi agora com clareza que o lugar onde eu estava era um quadrado de pedras, com pouco mais que dois metros de altura e profundidade. Pude notar então que Albert era alto sim, mas bem magro, quase anoréxico.

Ele bateu na porta e ela foi aberta pelo lado de fora por um segurança, que entregou para Albert um cabide com roupas decentes, que ele passou para mim. Coloquei aquela roupa e com certeza me senti mais homem, era uma calça social e uma camisa mostarda. Logo depois foi me passado um sapato social e meias para combinar com a roupa.

Ele estava comigo o tempo todo e quando terminei, finalmente pude sair daquele lugar. O corredor que havia além daquela porta era comprido e escuro, a não ser por umas poucas tochas que iluminavam o caminho.

 Percorremos um bom trecho, até que Albert parou num determinado ponto e baixando uma das tochas, uma porta se abriu. Ali começava a minha nova vida.

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