Além do Abraço – parte 2
2 – Quem sou eu…
Meu nome é Lúcio, eu nasci em uma cidade pequena que nunca me trouxe nada. Com pessoas mesquinhas e pudicas. Hipócritas! Faziam de tudo no aconchego dos seus lares, todos sabiam e todos sorriam como se nada soubessem. Minha infância foi marcada pela violência das crianças estúpidas do lugar, eu era o queridinho da mamãe e sempre apanhava. Loirinho e de olhos azuis, muito bonito e machucado.
Minha mãe era sozinha e por isso se desdobrava em mil para poder fugir das fofocas do lugar, mas todos sabiam de onde ela tirava o dinheiro para sustentar eu e meu irmão, e depois de alguns anos eu também descobri por quê daquelas senhoras todas me olhavam de lado. Elas que cuidassem melhor dos seus maridos.
Na adolescência era o menosprezado da sala, o que não iria ter futuro, por que era muito burro. Enquanto meu irmão era o melhor da classe.
Não conto nada disso com rancor, esses detalhes não me importam mais, onde eu estou essas pequenas coisas não incomodam.
E foi nessa mesma cidadezinha que conheci a infeliz da minha mulher, tão mesquinha como todas as outras pessoas, mas com um quê a mais que me fazia identificar com ela, seu desejo de ir embora dali. E foi o que fizemos.
Antes de completar o segundo grau a menina engravidou e eu acabei casando e indo trabalhar num banco.
Perdemos o primeiro bebê, mas eu continuei feito um burro de carga para manter o nível de vida dela. Ela ficou grávida de novo. E quando completei meus 23 anos descobri que ela me enganava com outro. No mesmo dia eu fui levado por Albert para sua casa.
O motivo ainda estava vago na minha cabeça, mas minhas dúvidas logo seriam sanadas.
3 – O que Albert tinha a dizer.
Quando vi pela primeira vez a casa de Albert fiquei paralisado, eu nunca tinha estado em um lugar tão grande. Nunca entendi o por quê de casas como a dele serem tão altas e grandes.
A tapeçaria cobria o chão quase que inteiro. E quando olhei para trás, onde deveria estar a porta, vi uma passagem se fechando dentro de uma lareira.
Toda aquela decoração e mistérios determinavam o quanto Albert era velho, ele gostava das coisas antigas e quase não podia se acostumar com telefones, que para ele eram coisas da modernidade.
Voltando ao relato, quando saímos pude ver a casa de Albert pela primeira vez. Aquela sala, além de grande, era assustadora. Ela tinha a pele de um animal estendida no chão, naquele momento não pude determinar de qual animal, mas pude notar que parecia um urso ou lobo, mas com uns dois metros de altura.
Toda uma cultura tinha sido escondida de mim por toda a minha vida, e depois daquele dia eu não deixaria mais que isso acontecesse.
Albert estendeu a mão e mostrou uma poltrona de couro onde eu deveria me sentar e sentou-se, diante daquele lugar, em outra cadeira de couro bem em frente à lareira. Agradeci com a cabeça.
- Senhor Groher, deve-se estar perguntando o que é tudo isso. Chegou a hora de te explicar. Devo te pedir paciência e silêncio, por enquanto.
O relato que ele fez parecia saído de um filme clichê de vampiros, mas qual seria a resposta, até esse momento eu achava que vampiros eram coisas de cinema também.
Ele disse que estava me observando fazia alguns meses e havia me escolhido para uma missão, então decidiu revelar a traição de minha esposa me levando, de forma sutil, ao flagrante.
- Mas, não se preocupe eu deu um jeito na sua esposa.
- Como assim, jeito?
- Eu a matei.
- E minha filha?
- Não era sua filha.
- Não?
- O sangue dela, não era sua descendente.
Ele disse isso com uma frieza indescritível. Eu descobri naquele momento a dádiva de não possuir uma alma, também não se possui remorso.
De certa forma eu já desconfiava que ela não era minha filha, por isso a notícia não me chocou demais. Assim como a descrição, que ele fez com orgulho, de todas as crueldades que havia feito com as duas e o amante.
Estava tudo arrumado, inclusive meu funeral e meu túmulo, ao lado das duas, “Amado Pai e Esposo”. Também descobri que não havia aparecido ninguém para realizar tais tarefas.
Minha mãe estava morta, assim como os pais da minha falecida esposa, que não tinha irmãos. Portanto a única presença a ser sentida foi do meu irmão, que eu não falava há oito anos. Bom, justo toda essa situação.Albert escolheu bem sua vítima.
Senti admiração por ele, que plano perfeito. Mas, porque eu?
- Eu o escolhi por sua raiva Senhor Groher.
- Minha raiva?
- É, isso o torna fácil de dominar.
- O que o faz pensar que irei aceitar isso assim?
- Sua vontade de viver, de ser alguém realmente importante, e não um traste, como se acostumou a ser.
A raiva corria em minhas veias, mas consegui me acalmar.
- Calma, não vou simplesmente te dominar, vou te ensinar a ser alguém, vou te treinar como um vampiro poderoso e rico.
Ele sabia que eu não poderia negar, não agora que o mundo se abria para mim. Apenas sorri, e controlei minha raiva.
- Venha, vou te mostrar minha casa e a sua missão.