Além do Abraço – parte 3
4 – A bela e mortal Ariadne.
Ele me levou por vários corredores da sua casa até chegar a um ginásio de esportes, onde eu vi uma das mulheres mais bonitas que haviam cruzado meu caminho. Ela estava praticando ginástica olímpica em duas barras.
Durante alguns minutos ficamos observando seus movimentos, e pude ver o orgulho pela sua cria nos olhos de Albert.
Depois de terminado o exercício ela nos notou e veio em nossa direção. Parou em frente ao Albert e fez uma reverência.
- Mestre?
- Querida Ariadne, gostaria de lhe apresentar minha nova cria, Lucio Groher.
Ela simplesmente me olhou nos olhos e não disse nada. Fez um sinal com a cabeça para mim, para Albert e voltou a treinar. Eu pude sentir uma pontinha de ciúme vindo dela.
Ariadne era uma mulher deslumbrante, com o corpo atlético e bem trabalhado, do tipo que enche os olhos. Aquelas mulheres que nunca olham para o lado enquanto andam. Ela tinha olhos e cabelos pretos como a noite.
Era muito estranho notar como a pele de um vampiro é pálida, mesmo em uma pessoa morena como Ariadne. Ela realmente me impressionou.
Então Albert me levou até o quarto que seria meu durante alguns meses, e me deixou dormir.
- Amanhã será um dia longo Senhor Groher, por isso, descanse.
O quarto era luxuoso como a casa e pela primeira vez eu me sentia totalmente sozinho, sem ninguém em quem confiar. Porém não me lembro de ter sido tão feliz como naquele momento, em que eu ainda não sabia o que viria a me acontecer.
Todas as traições e desventuras da vida de um vampiro ainda não haviam caído sobre mim. Porém, todas as mágoas da minha vida humana pareciam menores naquele momento e me senti confortável e sem culpa, finalmente sem alma e eterno.
5 – A minha missão.
Na noite seguinte sai do meu quarto cheio de disposição e medo e fui me encontrar com Albert na sala da lareira. Naquele momento começaria o meu treinamento.
- Senhor Groher, boa noite. Sente-se
Eu agradeci e sentei.
- O que o senhor imagina que seja a vida de um vampiro?
- Alimentar-se de sangue e essas coisas?
- É, podemos dizer que isso também faz parte da vida de um vampiro, mas não foi isso que eu perguntei.
Ele se levantou e começou a minha primeira lição.
- Humanos são alimento, nunca se esqueça disso. E vampiros não são confiáveis, nenhum. Essas duas regras podem significar a sua sobrevivência. Depois de muitas eras os vampiros descobriram isso, se organizaram e hoje somos apenas um mito para o mundo. Essa organização foi necessária, mas durante o processo ela foi corrompida por todos esses vampiros gananciosos, e eu pretendo me livrar deles.
- E a minha missão?
- Calma, já vou chegar lá. Na nossa cidade temos um governante vampiro, uma pessoa que dita as regras que devemos seguir, mas ele é muito vaidoso e descuidado. Eu pretendo tirá-lo do poder.
- E para que você precisa de mim?
- Eu faço parte de um conselho na nossa cidade, um conselho de antigos e eu represento a minha família nessa instituição. Eu não posso mover uma peça desse tabuleiro sem que desconfiem, por isso você está aqui. Você irá me ajudar a tirar Cassiano do poder.
- Mas, como? E quem é Cassiano?
- Cassiano é o líder dessa cidade, o governante instituído dos vampiros, uma pedra no meu sapato. E como? Bom, meu caro, você irá demonstrar aos outros anciãos do conselho como Cassiano é fútil e impressionável. E você, com seus olhos azuis, vai fazer isso por mim.
- Mas, você me criou. Todos irão desconfiar de você.
- Eu criei uma identidade secreta para você meu jovem, e ninguém, além das pessoas de minha inteira confiança, sabem da sua criação. Sua “chegada” na cidade e sua fama já foram providenciadas.
- E quem garante que esse tal Cassiano vai cair nessa.
- Ele é uma criatura fútil, ligada em demasia à fama e a garotos bonitos como você. Nada dará errado se você agir como eu mandar.
Um frio percorreu a minha espinha, uma intuição de que as coisas não seriam tão fáceis como Albert estava pensando.
- Mas por agora, eu vou ensinar-te a ser um vampiro real. Seus poderes e do que você é capaz de fazer. Além, é claro, de colocá-lo em seu papel.
Assim passaram-se três longos meses de estudo e treinamento nas artes vampíricas, e no final eu sabia o suficiente sobre o mundo vampírico para me passar pelos principais famílias da organização que o Albert representava.
Aprendi a me disfarçar e disfarçar a minha condição para os humanos, de forma que poucas pessoas desconfiassem de minhas intenções ou mesmo da minha natureza imortal. Afinal, nada poderia falhar diante do nosso líder, ele deveria acreditar que eu não era um recém vampiro, e sim que tinha muitos e muitos anos de experiência.
Também conheci melhor as técnicas de Ariadne. Com seus passos silenciosos, não foram poucas as vezes que me pegava de surpresa com um punhal em meu pescoço. Ela fazia questão de deixar clara a sua superioridade física sobre mim. Ela poderia estar na minha frente e eu ainda sim não poderia vê-la.
Porém, o principal, aprendi a ser frio como Albert. Tive aulas de etiqueta, de comportamento e grandes aulas de sadismo.
O papel que eu iria representar exigia isso de mim, e eu adorei. Eu deveria ser um artista do sangue, uma pessoa que fosse famosa por seus feitos sanguinários. Não apenas matar por matar, mas matar com requinte. Esse era o ponto fraco de Cassiano, o glamour, o requinte. E era exatamente aí que eu deveria atacar. A sociedade vampírica não aceitava bem quem poderia ser deixado levar por seus instintos, principalmente o líder da cidade. Frieza era um dos requisitos, segundo Albert, para ser um bom líder.
E Albert? Quem era aquele senhor ambicioso que havia me criado?Quais eram as suas reais intenções?
Ele passava horas me contando sobre a sociedade que eu havia acabado de entrar e sobre seu filho que mais o orgulhava, Bob.
Bob, segundo os relatos de Albert, era seu filho. Um outro vampiro, de quem ele sentia o maior orgulho. Bob era perfeito, e havia sido a primeira cria de Albert na América. Ele havia sido um dos marinheiros do barco que acompanhou Albert até aqui.
Com todas as suas histórias, Albert me deixava intrigado em qual seria a sua idade ou de onde ele vinha, já que pelo visto Bob havia sido vampirizado por volta de 1610.
Mas nunca víamos Bob. Ele, em todo o momento que estive na casa, nunca apareceu.