Além do Abraço – parte 4

6 – Minha chegada triunfal

O boato da chegada de um artista na cidade foi implantado antes mesmo que eu fosse vampirizado, portanto Cassiano estava esperando ansiosamente por esse momento.Uma festa foi preparada para esse acontecimento.

Fui levado até uma das saídas da cidade, deixado em um ponto e fui pego por uma limusine com vidros fumê. Então às 10 horas de uma quarta-feira sem lua a cidade que já havia me acolhido uma vez, me acolheu de novo, agora como um morto-vivo. Muito rico e famoso, mas um morto-vivo.

Fui diretamente para a maior casa da cidade, na área mais cara e privilegiada, onde eu tinha uma audiência com um senhor chamado Cassiano. Um nome já imponente, mas nada comparado à figura que eu viria a conhecer.

Quando entrei na magnífica casa, fiquei pasmo, pois não devia em nada para casa de Albert, porém havia uma diferença, a mobília dessa casa era alegre e colorida, repleta de luz. A casa parecia pulsar de vida, muito diferente da casa que eu havia passado os três últimos meses.

A festa para me receber estava alta quando eu cheguei, com muito vinho, mulheres bonitas e senhores distintos. O salão principal da casa estava cheio de gente, e no fundo pude ver uma cadeira de cedro, para onde fui conduzido, para o encontro do príncipe daquela cidade.

Cassiano parecia uma escultura grega vestindo Armani, seu olhar cativava a todos e ninguém passava sem notá-lo, era uma pessoa excessivamente carismática, com sua beleza andrógina. Qualquer outra descrição poderia ser injusta.

Ele se levantou e fiz uma reverência, ele sorriu e estendeu a mão.

– Seja bem vindo a nossa cidade.

– Muito obrigado, Sr. Cassiano.

– Por favor, me chame de Cassius e será meu amigo.

Eu sorri, ele também. Parecia que estávamos nos entendendo, mas uma coisa eu aprendi sobre a sociedade dos vampiros, nada é como parece.

– Venha, quero te apresentar algumas pessoas. – disse o príncipe.

Foi então que atrás da bela cadeira de cedro eu vi Albert olhando atentamente para mim, e logo eu percebi que estava entre a cruz e a espada.

Durante a noite fui apresentado a todos os senhores e senhoras importantes da cidade, inclusive a Albert, que demonstrou não ter gostado de mim. Que ironia, ele havia me colocado ali. O jogo era ainda mais cruel do que eu havia imaginado.

Todos pareciam querer me ver e falar comigo, menos uma pessoa. Era uma menina ruiva que estava sentada num canto da sala olhando para o chão. Naquele momento uma curiosidade cresceu dentro de mim, quem seria aquela única garota que não me bajulava?

Por instantes minha atenção foi toda dela. Ela aparentava uns 18 anos, era ruivinha com o cabelo bem liso e embaraçado, um vestido fino e florido na altura do joelho e uma botina preta no meio da canela meio aberta e desamarrada, além de muita maquiagem preto nos olhos cor de mel.

Era linda, mas de uma beleza diferente daquelas vampiras na festa. Não era glamourosa, mas simples. A beleza dela era como um soco na cara, uma beleza agressiva e selvagem.

De qualquer maneira não fui apresentado para ela durante a festa, e eu tinha uma missão a cumprir, tinha que me concentrar.

Já era meia noite quando finalmente Cassius me chamou para conversar em sua sala.

– Eu fiquei sabendo que você é uma artista, não é mesmo?

– O que o senhor considera arte?

– Eu sei muito mais sobre arte do que você imagina, Senhor Groher – ele deu um sorriso sarcástico.

– Pois eu considero arte aquilo que dá prazer aos sentidos. Cassius, minha produção é considerada por muitos, puro sadismo, mas nada mais é que pura arte.

– Quando, então, poderei apreciar o seu trabalho?

Ele tinha chegado no ponto onde eu queria, o plano de Albert até aquele momento tinha sido perfeito. Eu podia ver a curiosidade nos olhos dele.

– Quando quiser, meu senhor.

Ele bateu palmas, como uma criança, e sorriu.

– Então comecemos agora.

– Com pessoas aqui, meu senhor?

– Não, mandarei todos embora agora, do que você precisa?

A festa foi dada como encerrada e todos foram procurar os seus destinos, assim como eu, fui caçar na cidade pela primeira vez.

Meu sonho estava se realizando, eu estava caçando finalmente. Fui até um bar onde eu sabia que havia música ao vivo. Onde eu sabia que havia uma bela e talentosa cantora.

7 – A primeira caçada.

A moça que eu estava procurando estava lá, tocando a última seqüência de músicas. Ela tinha cabelos castanhos, cacheados e compridos, a pele morena e os olhos verdes.

Quando entrei no bar todas as pessoas voltaram seus olhares para mim. Um pequeno truque que eu havia aprendido com Albert. Nessa noite eu estava particularmente interessante, com meu blazer preto e minha camisa mostarda. Exatamente a roupa que eu tinha usado nos meus primeiros passos como vampiro.

Consegui uma mesa onde ela pudesse me ver diretamente. E fiquei olhando para ela. Pedi um dos melhores vinhos da casa e fiquei esperando com dois copos servidos na minha mesa.

Fiquei segurando o copo como se fosse um convite, que logo foi aceito quando o pequeno show terminou. Ela estava usando um belo vestido preto, sexy, sem ser vulgar.

Eu vi que ela estava envergonhada de vir até a minha mesa, mas não se privou da sua vontade. Quando chegou em frente a minha mesa eu levantei e puxei a cadeira para ela poder sentar. Ela retribui com um belo sorriso.

– Não pude deixar de notar a beleza da senhorita.

– Muito obrigada, senhor…

– Groher, mas pode me chamar de Lúcio. E a senhorita?

– Vanessa, senhor, quero dizer, Lúcio. Só Vanessa.

A conversa se alongou até o final da garrafa quando ela já estava pedindo para que eu a levasse para algum lugar.

– Mas nada de querer ir para a minha casa! – ela já estava bêbada quando disse isso.

– Claro, senhorita. Eu não sou inconveniente. Vamos para onde você quiser.

Assim eu pedi para que o chofer levasse meu carro e fui levando o carro dela até a casa de Cassius.

– Puxa, que casa você tem!

– Você ainda não viu nada.

Ela ficou deslumbrada com o luxo da casa do príncipe da cidade. A sala que eu havia pedido para ele arranjar já estava pronta e assim fui ficar sozinho com ela. A sala tinha um grande espelho no lugar de umas das paredes, era muito bem iluminada e tinha duas cadeiras de couro sujas de sangue no meio da sala.

Entramos e logo depois pude sentir a presença de Cassius do outro lado do espelho. Vanessa estava assustada as coisas não estavam saindo exatamente como ela esperava.

– Vanessa, você tem idéia de quem eu sou?

– Você? O que quer dizer com isso?

– Não fique com medo…

Estávamos de pé, fui até ela e a abracei por trás. Fiz carinho em sua nuca, em seu cabelo e ela arrepiou. Quando seu pescoço estava à mostra eu cravei lentamente meus caninos e suguei apenas o suficiente de sangue para que ela sentisse o terror e o prazer que aquela situação proporcionava.

Depois de alguns segundos de êxtase ela ficou completamente apavorada. Eu a deixei em pé e fui sentar em uma das cadeiras da sala.

– Por que você me trouxe aqui? – ela perguntou chorando.

– Porque você é especial, querida. Sente-se e acalme-se. Eu gostei muito de você, mas infelizmente eu vou ter que matá-la daqui a – olhei em meu relógio que marcava exatamente duas e trinta da manhã – meia hora.

– Por que? – ela já estava sentada, mas chorando muito.

– A pergunta não é por que, mas sim como você pode sair dessa. Você tem uma oportunidade de me convencer a não matá-la.

Ela foi até meus pés e implorou.

– Por favor, não me mate!

Eu passei levemente as mãos em seu cabelo macio e puxei com força sua cabeça para trás.

– Você quer algo de mim? Então não se rebaixe.

Eu puxei a moça pelo cabelo até próximo a sua cadeira e a joguei. Ela gritava e isso fazia meu sangue ferver de desejo de ter seu sangue em minha boca, mas a paciência e o tempo deixavam as coisas ainda mais excitantes.

– Seu tempo está passando…

– Mas, se eu não posso implorar!

– Ora, menina, seja criativa. Faça algo que me impressione.

Eu me sentei confortavelmente na cadeira, cruzei as pernas e juntei as pontas dos meus dedos.

Ele respirou fundo, ficou de pé e com uma voz inspirada ela começou a cantar uma canção de amor. Quando terminou ela veio até mim e me beijou.

Agora as suas lágrimas vertiam quase sem querer e novamente pude ver aquela beleza da primeira vez que eu suguei alguém. Ela estava se saindo melhor que eu esperava.

– Você me ama? – eu lhe perguntei.

– Na verdade, eu te odeio. Você quer me matar.

– Claro, isso é obvio, mas você quer se redimir antes de morrer? Perdoar-me antes de morrer? Ir diretamente para Deus?

– Na verdade, se eu fosse mais forte que você, te mataria. – podia ver o ódio nos olhos dela.

– Bom, a única forma de você sair viva daqui é me amando. Você deixaria seu ódio de lado pela sua vida?

Ela me olhou desolada, como se não acreditasse realmente que eu a deixaria sair, mas se havia uma maneira, ela tentaria.

– Eu te amo! – ela disse.

– Como você poderia provar que me ama?

– Como você quiser.

– Eu vou abrir a porta e se você decidir permanecer do meu lado, provará que me ama.

Eu abri a porta e ela sabia que não podia sair, afinal a casa estava cheia de seguranças. A porta ficou aberta por cinco minutos e ela nem sequer olhou para a saída.

– Muito bem, você foi muito esperta.

Fechei a porta, ela veio chorando até meus braços e eu a abracei.

– Agora, você me deixa ir?

– Claro que não, bobinha…

Assim eu a suguei o suficiente para que a minha sede fosse saciada. Ela morreu bem nos meus braços.

Nesse instante Cassius entrou na sala e me olhou com um misto de admiração e receio. Ele não sabia se me elogiava ou não, mas no fundo eu sabia que aquilo era exatamente o que ele gostaria de fazer, mas não podia.

Eu me inclinei e fiz a minha habitual reverência e, enfim, ele aplaudiu.

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