Além do Abraço – parte 5
8 – Minha perdição
Depois dessa prova de fogo eu caí nas graças de Cassius. Ele mesmo providenciou para que o corpo da menina fosse desovado, a polícia da nossa cidade também não gosta muito de casos misteriosos.
Claro que tudo acontecia em segredo, pois nossas brincadeirinhas eram proibidas. E o pior de tudo era que ele gostava de me ver torturar as pessoas e um pacto foi feito, o que ele não sabia era que logo eu o trairia em nome de Albert.
Cada dia mais ele queria participar, mas eu nunca deixava. E quanto mais eu negava, mais interessado ele ficava.
Nossas festas estavam ficando mais freqüentes e começamos a ter problemas com a polícia, coisa que Cassius sempre dava um jeito e até dois meses depois nenhuma desconfiança recaia sobre nós. Até uma vampira agendar uma reunião, que Cassius dizia ser importante.
Ele insistiu muito para que eu estivesse presente e ficava dizendo como a pessoa que nós iríamos encontrar era feia e sem graça, que eu não deveria me preocupar com ela.
– Eu a deixo permanecer aqui por que é uma boa lutadora, pena que tão ingênua! Como ela é bobinha!
E continuava rindo.
Quando chagamos até o salão principal, o mesmo da festa, onde estava a cadeira de cedro, eu vi a mesma menina da festa, a anti-social, a mais bela de todas. E até mesmo demorou para que eu chegasse a conclusão de que era daquela menina que o Cassius estava falando.
– Então senhorita, qual é a pauta da nossa curta reunião?
– Lamento meu príncipe, mas acho que nossa conversa não vai ser curta, e a propósito eu gostaria de uma reunião particular! – ela olhou para mim, deixando bem claro que não gostava da minha presença.
– Estou incomodando? – perguntei.
Cassius me segurou pelo braço:
– Não, Lucio fica. Aliás, deixa-me apresentá-los, Lucio essa é Helena, Helena esse é meu braço direito Lucio.
Eu estendi a mão para cumprimentá-la, mas ela ignorou meu ato e continuou falando com o príncipe.
– Meu senhor, está acontecendo assassinatos na nossa cidade. E tenho quase certeza que são obras de um de nós. Exijo uma investigação e se assim for, que o vampiro seja morto, pelas nossas leis.
– Você tem alguma prova, qualquer coisa?
– Não senhor, ele tem muito cuidado, não houve nenhuma evidência concreta a não ser a falta de metade do sangue nos corpos – ela olhava com triunfo.
– Mas isso é uma acusação grave, como teve acesso à informação da falta de sangue?
Por um momento ela ficou quieta e pareceu irritada.
– Isso realmente importa?
– Claro criança, isso seria motivo para a caçada ao tal sujeito.
– Eu já fiz a minha parte! Eu dei a dica e se o senhor quiser, pesquise por si mesmo.
Ela virou as costas e saiu da sala. Nesse momento eu pedi permissão a Cassius para seguí-la, e ele consentiu.
Eu a segui furtivamente e ela parecia muito preocupada e pensativa para me notar.
– Babacas! – ela disse ao sair do portão.
– Pois não, senhorita, falou comigo?
– Você está me seguindo? – se ela fosse viva com certeza estaria corada.
– Desculpe-me, essa não foi a minha intenção.
– Mas você fez, me deixe em paz.
Ela estava indo embora quando eu disse que poderia ajudá-la.
– Mas você não é capacho de Cassiano?
– Senhorita, eu não sou capacho de ninguém. – meu sangue ferveu, mas eu me contive.
– Mas você sabe que se ele não quiser nada acontece.
– Não é bem assim, existem regras que até mesmo ele tem que seguir. Estar na posição dele requer algumas responsabilidades
– E você acredita nisso? – ela me olhou com espanto.
– Porquê? A senhorita não?
Ela olhou para o chão como se estivesse triste.
– Eu costumava acreditar, mas agora…
Ela abaixou a cabeça, sentou no meio-fio e assobiou. Segundos depois eu vejo um lobo cinza vindo na sua direção, eu me assutei. Porém o lobo parou e deitou aos pés dela não sem antes, é claro, rosnar para mim.
– Calma Garras, ele é amigo.
Eu fiquei lisonjeado com a confiança rápida que a menina me deu. Ela realmente era muito ingênua, mas isso só me trazia uma admiração estranha por aquela menina. Vontade de passar as mãos no rosto tenro e pálido dela.
– O senhor é bem diferente do que eu tinha pensado.
– Porquê? O quê você tinha pensado?
– Que era um mauricinho sem coração, igual ao Cassiano. Pra ele te aceitar como braço direito!
– Eu sou um pouco como você, tenho esperanças que esse jogo de poder pode mudar. – eu deveria ganhar um Oscar por essa fala!
– Que bom que existem pessoas como você do lado dele. Aliás, é melhor a gente sair daqui.
– Para onde você vai?
– Sei lá, acho que vou dar umas voltas por aí.
– Então vamos.
Eu tive vontade de ser adolescente de novo, de não preocupar, de sair na noite. E era exatamente isso que eu ia fazer. Saímos, fomos a um bar, dançamos, nos divertimos. Cada vez que eu olhava para ela, eu me encantava mais ainda. Ela conseguia se divertir, coisa que eu não fazia desde que eu tinha me casado, ainda vivo. E de repente eu me senti a vontade, e relaxei.
Quando saímos já era 5 horas eu não tinha mais tempo para ir até a casa de Cassius, ela me convidou para dormir na casa dela.
Quando chegamos me senti a vontade. A casa era exatamente o oposto da casa de Albert e de Cassiano, era pequena, de um cômodo. Então ela me convidou para dormir com ela na mesma cama. Dormimos assim, abraçados. Foi a melhor noite da minha vida.
Quando anoiteceu, eu a deixei dormindo e saí para casa de Cassius. Quando entrei ele já estava impaciente.
– O que você ficou fazendo com aquela menina? – ele tinha quase rancor na voz.
– Nossos interesses, acho que ela sabe mais do que aparenta.
– Ela não sabe nada e não seja idiota, aquela menina não oferece perigo, e devo pedir para que você não a veja mais!
– Cassius, você subestima os inimigos.
– E você os admira!
– Do que você está falando?
– Não seja idiota, ou você acha que eu sou? Acha que eu não vi como você olhou para aquela criança?
– Não seja ridículo!
– Eu? Ridículo?
Eu me controlei.
– Acho que vou me retirar por hoje, meu senhor, boa noite.
Eu já ia saindo quando ele me chamou.
– Lucio, não vá embora assim.
– Porque, senhor, ainda tem algo a dizer?
– Se sair daqui dessa forma você sofrerá. Eu já dei muito de mim até agora, quero ver os seus sacrifícios.
– Eu não preciso dá-los a você.
– Se você realmente pensa isso, Lucio, espero que sobreviva nessa cidade.
– Se não nessa, meu senhor, em outra. Já que me pede eu me retiro da cidade.
Segundos de suspense antes da minha reverência e ele se levantou, foi até mim, pegou suavemente no meu rosto e me fez um carinho lento e tenro.
– Não vá.
A voz dele estava quase sumindo.
– Lucio, eu te amo, não vá.
Ele agora estava exatamente onde Albert previu. Eu tinha feito a minha parte
– Nunca te abandonarei, meu senhor.
Eu disse e ele me abraçou.
9 – O final de Cassius
Mais tarde nessa noite eu fui visitar Albert e lhe contei o que tinha acontecido.
– Enfim chagou o dia da minha redenção contra esse ignóbil!
Albert então me deu todas as instruções de como eu deveria agir para acabarmos definitivamente com Cassius. Nesse momento eu pensei que talvez minha vida não estivesse tão mal, se tudo se resolvesse, Albert poderia me libertar e eu poderia ficar com Helena.
Então na noite seguinte eu disse que dessa vez ele poderia participar ativamente da caçada e ele deu pulinhos de alegria.
– Como vai ser dessa vez, meu amor?
– Eu tenho uma idéia, Cassius, você gosta do lobo mau?
Eu saí da casa e fui atrás da minha caça enquanto Albert se preparava para dar um flagrante em Cassius. Eu logo encontrei o que estava procurando, uma menina de uns doze anos mais ou menos e cabelinhos loiros. Eu parei o carro e ela veio até mim.
– O que o senhor quer?
– Entre no carro, minha criança.
Ela não era alta nem tinha corpo, realmente parecia uma criança indefesa. Eu a levei até minha casa e lá as camareiras arrumaram tudo. Depois de um bom banho, cachinhos no cabelo e uma capa de veludo vermelha ela parecia uma heroína do meu conto da fada. Assim levei a caça ao abatedouro.
Cassius tinha dispensado seus filhos em outras buscas e estávamos sozinhos na casa, bom, pelo menos era o que ele pensava, pois Albert e os outros vampiros mais velhos da cidade estavam lá, escondidos.
Logo que cheguei Cassius vibrou ao ver aquela menina.
Eu comecei a ditar as regras do jogo.
– Minha querida, o jogo é o seguinte, aquele senhor ali – apontei para Cassius – é o lobo mau, você como deve ter notado é a chapeuzinho vermelho e eu a vovozinha.
Eu peguei uma cesta de vime e dei para ela.
– Esses são os doces para mim, mas o lobo mau vai estar te seguindo, o único jeito de se salvar é encontrando a vovó antes que o lobo te encontre.
Eu vendei a menina e a rodei, ela saiu correndo enquanto eu e Cassius nos escondíamos na casa, ela tirou a venda. E a caçada começou!
Cassius se deliciava, eu me escondi nas sombras. Ela nunca iria me encontrar. Claro que a caçada não era difícil, mas o mais excitante era ver a menininha correr, gritar e chorar. Quando Cassius a encontrou e começou a sugá-la os três vampiros mais antigos da cidade saíram das sombras, mas Cassius só parou quando a menina já estava completamente morta em seus braços. Era dantesco ver aquele ser tão poderoso todo sujo de sangue diante daqueles juízes cruéis. Albert se manifestou primeiro e mandou me pegarem também.
Inicialmente eu não entendi, mas logo entendi que Albert não me deixaria viver de maneira alguma.
– Lucio, seu traidor!
– Não vê que me pegaram também?
– Senhores, eu devo dizer-lhes que foi muito astuto de vocês me preparar uma cilada, mas não me tirarão do cargo com tanta facilidade.
– Estou impressionado pequeno Cassiano, mas o que vimos foi suficiente – Albert disse isso com ar de triunfo.
Eu não disse nada, me sentiu impelido a proteger Albert, nem que isso custasse a minha vida.
– Qual será a sentença senhores? – perguntou Cassius.
– A morte final de vocês dois, é claro! – a maneira com que Albert dizia isso me assustava.
– Mas antes eu queria dar uma última ordem, ou se preferirem, um último pedido.
– Diga e veremos se é possível ou não.
– Existia outra pessoa envolvida nisso.
Quando Cassius falou isso um frio percorreu minha espinha.
– Quem? Fale logo! – os anciões já estavam ficando impacientes.
– Uma moça chamada Helena, se quiserem saber ela está nos espiando atrás do trono de cedro – ele sorriu triunfante.
Aquele maldito, ele tinha armado contra mim, se eu estivesse solto naquele momento eu mesmo tinha matado aquele imbecil.
Os mais velhos pegaram Helena. Ela se debatia e dizia que não tinha nada com toda aquela história, mas a única coisa que pude perceber era o olhar de desprezo que ela me dava. Então pela primeira vez eu me senti um monstro por fazer aquela pessoa me olhar daquele jeito.
Bem baixinho Cassius me perguntou se eu tinha gostado da pequena surpresa que ele tinha preparado para mim.
Albert deu voz de comando:
– Que todos morram!
Eu não me contive e uma fúria me subiu a cabeça e a partir daí eu não vi mais nada, a não ser sangue na minha frente. Quando acordei do transe eu vi que só havia sobrado Albert e Helena.
Albert aplaudiu efusivamente.
– Esse é o meu garoto!
Helena me olhava como se eu fosse um monstro e não merecesse compaixão, ela realmente estava muito chocada.
Albert colocou então a mão no meu ombro.
– Filho, agora você vai ter que sair da cidade.
– Você quase me matou Albert!
– A vida é uma selva, sobrevive quem pode, não quem quer.
Helena se ergueu de forma fria, como eu nunca achei que ela fosse capaz de fazer essa pessoa tão meiga.
– Tem razão senhor, e a partir de hoje eu também vou aprender a não confiar mais em qualquer um.
O tom de voz dela era como o aço.
– E você, meu filho?
– Eu também vou partir, mas quero que o senhor me livre do compromisso que tenho com você.
Nesse momento olhei para Helena e notei realmente que minha pós-vida tinha acabado e chorei, chorei lágrimas de sangue, ela simplesmente se virou e foi embora.
– Tudo bem, eu te livro do seu compromisso, mas a partir de hoje não te dou nem dinheiro, nem conhecimento.
– Obrigada mesmo assim, por me deixar sair vivo.
– Mas devo lhe dizer que vou te dar apenas dois dias de dianteira e a partir disso tanto Ariadne, quanto Bob estarão te caçando.
– Eu entendo meu senhor, deixe que venham.
Dizendo isso eu fugi.