Além do Abraço – Final

Terceira parte

15 – Os melhores dias

Sabe o que é ter do seu lado a mulher da sua vida e não poder tocá-la ou mesmo ser gentil com ela sem que ela te olhe de lado? Você pode matar por ela e ela nem mesmo confia em você?

É mais ou menos assim a minha situação.

Eu e Helena partimos para o oeste encontrar uma pessoa que poderia nos ajudar com toda a confusão que eu armei para ela, pelo menos é assim que ela falava.

Nada mais de carro. Vocês sabem o que é passar dias andando no mato? Dormindo em cavernas no meio de morcegos?

Mas sabem de uma coisa, eu vivia os dias mais felizes da minha vida, eu me contentava em vê-la todas as noites e ela caçava como ninguém. Nesses dias nós não sugamos sangue de humanos, só de animais. Ela virava um lobo e corria lado a lado com seu lobo cinza e sempre trazia sangue pra mim. Mas nós mal nos falávamos.

E mesmo assim ela era um doce. Ela gostava de parar algumas vezes e lavar o cabelo nos lagos que a gente encontrava no caminho, e quando a lua refletia na água refletia também no cabelo dela.

16 – A cidade perfeita

Depois de uns 10 dias na estrada nós chegamos a uma cidade muito estranha, parecia uma cidade pequena, mas parecia ao mesmo tempo a cidade perfeita, sem uma pichação.

As casas tinham a fachada em tons pastéis e as crianças brincavam nas ruas, os idosos sentados do lado de fora de suas casas ficavam olhando os jovens sentados conversando.

Eles nem olhavam diferente pra gente, e era como se nós fossemos vizinhos deles. Muito estranho.

Tinha uma rua na cidade que parecia ser a rua das festas, mas na verdade não existiam bares, nem luzes néon, era uma rua residencial e as festas estavam rolando dentro das casas.

Helena foi andando por aquelas ruas sabendo o que estava fazendo.

Nós chegamos até uma rua sem saída que tinha uma casa muito grande no final, onde estava acontecendo a maior festa.

Tocando o melhor R&B, rap e reggae num sobrado que mais parecia uma mansão num tom amarelo bem clarinho e branco.

De fora tudo levava a crer que era uma festa comum e comportada numa cidade comportada, até que eu entrei.

Havia mulheres seminuas dançando em cima das mesas, mulheres de todo o tipo, pessoas se drogando de todos os lados na maior cara dura e alguns casais até mesmo no ato sexual.

A casa dentro era linda toda branquinha e bem iluminada e aquela festa toda rolando.

Helena foi direto para dentro da casa e como se já sabendo o caminho foi para o escritório.

Ela nem mesmo bateu, nós entramos.

A primeira coisa que eu vi foi uma mulher nua e desmaiada sentada na cadeira atrás da escrivaninha.

  • Robbie? – ela tinha um tom de dúvida.

Nisso subiu um cara, uma figura muito estranha, do meio das pernas da menina, como se ele estivesse embaixo da escrivaninha, todo sujo de sangue.

  • Heleninha!

Ele empurrou a cadeira e nós vimos a parte interna da coxa da menina toda suja de sangue.

Ele tinha o cabelo muito parecido com o do Bob Marley, mas era completamente branco e pálido, sem contar no olho cor de mel. Estava usando um traje social completo.

  • Quanto tempo minha querida!

  • Quanto tempo mesmo, Robbie. Mas, no entanto você continua o mesmo.

  • Eu pensei que você tinha esquecido o caminho pra cá. Quem é seu amigo?

  • É disso mesmo que eu queria falar com você, eu tô encrencada. E encrenca das grossas.

  • É contra aqueles babacas do conselho?

  • Isso mesmo!

  • Bom, você sabe que eu adoro encrencar com eles, tô dentro.

Ele pediu para que o seguíssemos e nos ofereceu roupas limpas e nós aceitamos, eu tava do jeito que eu gosto de novo. De blazer e camisa e Helena daquele jeito dela, vestido no joelho e coturno preto.

Depois disso ele nos levou até a garagem da casa, onde tinha mais ou menos uns dez carros, um era iluminado de forma especial e ficava separado dos outros, era um corvette prateado que refletia até meus cílios de tão polido.

  • Vamos dar uma volta?

Ele pulou dentro do carro, e nós também entramos. Ele abriu a garagem e os pneus cantaram.

O cara dirigia igual um louco.

Ele pediu para que Helena contasse o que tinha acontecido.

  • Bom, Robbie, eu e esse aqui matamos dois membros antigos do conselho.

  • Você sabe a que famílias eles pertencem minha querida?

  • Sei! E exatamente essas famílias estão nos caçando.

  • E exatamente o que vocês querem de mim?

  • Olha, na verdade nós queremos os nomes das pessoas que estão nos caçando. Nós queremos nos antecipar.

  • Vocês vão matá-los?

  • Talvez sim, talvez não!

  • Isso tá fácil de resolver e por hoje relaxem! Esses nomes vão ser seus amanhã!

Helena parecia ter muita intimidade com aquele cara e isso me deixava louco de ciúme. E afinal, como, uma menina como ela, doce, conhecia um tipo como ele?

A minha vontade era ir embora e se pudesse matá-lo logo, mas eu não podia.

A cidade era toda do cara.

Durante o nosso passeio o celular do carro tocou e ele atendeu.

  • Olá mestre! Sim…Sim…Mas é claro! Aliás, eu gostaria de te perguntar uma coisa…

Depois de uns vinte minutos de conversa ele nos disse que o cara que estávamos procurando se chamava Van Helsing.

Helena me pareceu muito preocupada e eu fiquei na minha, fazia questão de não olhar para aquele cara.

A noite já estava indo quando voltamos para a casa de Robbie.

Ele nos colocou em quartos separados. Mas eu fiz questão de fugir do meu quarto, me tornar invisível e me esconder no quarto de Helena, afinal, eu precisava protegê-la.

Até aí esse era o nosso primeiro momento sozinhos depois que entramos naquela cidade maldita. Eu sinceramente não queria brigar com ela, mas o ciúme estava me consumindo.

  • De onde você conhece aquele cara?

Ela tomou um grande susto quando me viu.

  • O que você está fazendo aqui?

  • De onde você conhece esse cara?

  • Não é da sua conta!

  • Claro que é, minha vida está em risco, e você contou tudo a ele e…Bom, você olha pra ele…E eu não preciso me explicar!

  • Nem eu! Você pode confiar em mim e pronto! E saia do meu quarto agora!

  • Eu saio, mas você é minha garota!

  • O que você disse? – a fúria dela parecia que ia explodir.

  • Que, bom, Helena você sabe que eu te amo…

  • Ama? Como? Mentindo pra mim? Se aliando a pessoas como Cassiano?

  • Mas antes era diferente!

  • Diferente como?

  • Eu era diferente.

  • Pessoas não mudam da água pro vinho do dia pra noite!

  • E você era a mesma desde quando você morava aqui com esse cara super bom-caráter?

Ela parecia estar possuída e veio até mim com o dedo na minha cara.

  • Nunca pergunte nem diga nada sobre o meu passado, você não tem o direito de me julgar!

Eu fiquei chocado e fiz o que achava certo, eu a abracei. E pela primeira vez ela também me abraçou, e chorou.

Quando ela se deu conta de onde estava ela me empurrou na parede e gritou para que eu saísse!

  • Você quer realmente que eu saia?

Ela sentou no chão e pela primeira vez estava completamente vulnerável! Eu nunca achei que a veria assim, nunca achei que ela abriria a guarda pra mim.

  • Eu acreditei em você uma vez!

  • Então acredite em mim de novo, me dê uma chance? – eu me aproximei dela bem devagar.

  • Pra quê? Pra te dar a oportunidade de me magoar de novo?

  • Eu nunca te magoaria!

  • E como se eu acreditasse nisso! Agora vai embora, senão…

  • Senão o que?

  • Eu vou ter que te expulsar!

Eu saí.

Algumas coisas me deixavam muito intrigado, o que afinal existia de tão terrível no passado de Helena?

E que cidade era aquela? Bom a cidade anterior era mística e não cabia saber, mas e agora? Essa cidade não existia nos mapas, e que eu saiba ninguém sabia de sua existência! E depois, eu não conhecia um lugar no mundo em que as pessoas fossem dóceis como lá!

E esse tal Robbie? Quem ele é? E que tipo de intimidade ele tem com Helena?

Na noite seguinte fomos recebidos por Robbie logo ao entardecer. E Helena parecia muito preocupada!

  • Heleninha, já pensou no que vai fazer a respeito do senhor Helsing?

  • Vou caçá-lo Robbie, é claro!

  • Mas você sabe quem ele é?

  • Eu sei a fama!

  • Eu posso te contar a história que eu conheço dele!

E então um relato surpreendente começou.

  • Ele é descendente direto de uma linhagem de caçadores de vampiros, inclusive ele é um dos antepassados de Mary. Mas uma piada cruel de um “burocrata” o transformou num de nós.Ele fazia parte, e tem orgulho, de ter participado das cruzadas e da caça às bruxas durante a inquisição, mas depois de ter se transformado ele se tornou um dos mais cruéis de nós. Vocês têm medo de estarem sendo caçados por ele?

Eu tremi dos pés à cabeça, mas Helena levantou serena e disse que não!

Eu estava atordoado e de certa forma com medo de saber sobre aquilo tudo, de saber sobre o passado de Helena. Naquela ilha maluca eu simplesmente deixei levar, mas agora era medo.

Bom o primeiro nome já tínhamos e saímos caçando quem nos caça!

17 – Garras, o lobo

Estávamos a uns dois dias de viagem, sem que Helena comentasse nada comigo de como ela faria para achar o cara, quando um lobo marrom saiu de trás de um arbusto. Eu sabia que aquilo não ia dar boa coisa.

Helena parou e mais três lobos saíram de onde estavam escondidos, e atrás desses lobos eu pude ver dois humanos e um bicho enorme, de uns dois metros e pouco de altura que me gelou os ossos!

Helena parou e criou garras! Os humanos meio que estranharam e um dos lobos resolveu atacar, quando isso aconteceu o Garras, o lobo de Helena, se transformou num bicho de dois metros igual aquele estranho e atacou desesperadamente o outro lobo. Ele parecia estar enlouquecido atacava numa velocidade que eu nem mesmo podia ver exatamente os movimentos, até que Garras começou a apanhar e Helena se meteu para salvá-lo.

Os outros ficaram espantados de como ela arriscou sua vida para salvar a pele de um deles.

Dois deles nos pegaram e levaram a mim e Helena até uma espécie de caverna e levaram Garras embora.

Helena ficou desesperada ao ver seu “precioso” ir embora e atacou os guardas que estavam nos guardando, eles acabaram com ela! Eu nunca tinha visto alguém bater em Helena com tanto facilidade, ela foi jogada de volta para a caverna e lá permanecemos por alguns dias, dias que demorou a Helena se recuperar. O que aqueles bichos iriam fazer conosco? Nos matar?

Depois de mais ou menos uma semana dois deles vieram até nós, dois homens. Um deles se aproximou de nós, meu sangue até gelou e o outro ficou parado, olhando atentamente nossos passos, eu estava sentado e Helena no meu colo, não que isso fosse sinal de nada, era só para a recuperação dela. Ela instintivamente levantou.

  • Onde está o Garras? – ela tinha fúria nos olhos.

  • Ele está morto, assim como vocês estarão, logo, logo.

Helena não se conteve e atacou o cara com uma ferocidade que eu nunca tinha visto. Mas o cara foi mais rápido que ela, o que era muito difícil de acontecer. Ele a atacou e a imobilizou.

  • Por que você se importaria com a vida de um lobo?

  • Ele era meu único amigo! A única criatura em que eu confiava!

E a coisa mais estranha aconteceu, o outro cara foi se transformando em lobo, e era o Garras, ele uivou algo e o outro soltou Helena. Ela correu até ele o abraçando, ela realmente o amava.

  • Parabéns sua sanguessuga, seu amor por ele salvou sua vida e de seu amigo. Seu lobo é um de nós agora, mas ele nos pediu um favor antes de se juntar definitivamente a nós, te ajudar numa caçada, então resolvemos te testar, portanto, você e seu amigo estão livres, por hora. Garras, por hora você pode ir, e se quiser voltar nunca mais os traga aqui!

Ele se virou e foi embora assim como os dois sentinelas na nossa porta.

Helena estava exultante de felicidade, e Garras continuou conosco.

Se antes eu tinha medo dele, agora tinha triplicado. Eu não estava entendendo mais nada e estava desistindo de entender. O que eu poderia fazer, perguntar pro Garras?

18 – Um hotel barato

  • Helena, pára um pouco, vamos conversar! Você não acha tudo que está acontecendo estranho? Afinal quem eram aqueles? A ilha que nós estivemos, como fomos parar lá? Como saímos? E aquela cidade estranha?

  • Bom Lucio, a cidade do Robbie foi um sonho que ele teve e concretizou, se você quiser, eu te conto essas histórias depois. Aquela ilha? Bom de lá eu não sei nada mesmo, mas eu andava tão atordoada com tudo e a nossa estada foi tão rápida. Já sobre aquelas criaturas é sábio não perguntar, nem lembrar que elas existem.

Eu ouvi os conselhos dela e achei muito sábio.

Ela estava mais atenciosa comigo e pareceu me aceitar melhor, muito melhor quer antes. Ela agora falava comigo. Minha situação com o Garras não vale a pena comentar, rosnar era seu lema. Ele nunca me aceitou muito bem mesmo.

E nossa jornada continuou. Até a próxima cidade.

Bom, eu concordo, os acontecimentos estão meio confusos, pra não dizer completamente sem nexo, mas tudo bem. Até aí eu também não estava entendendo.

Helena estava atrás de um telefone! Que coisa! Era difícil ela procurar alguma tecnologia, mas hoje, ela estava procurando um telefone!

Eu vi, ela ligou a cobrar para outra cidade, aliás, outro país! E começou a falar em espanhol com quem pareceu ser a telefonista. Não que eu não entenda espanhol, mas, vocês sabem, né! Ela me surpreendia cada vez mais.

Depois de uma meia hora naquele telefone, ela se virou pra mim e disse:

  • Ele está na nossa cola, aliás, nessa cidade mesmo!

  • Quê? Quem?

  • Quem, estúpido?

  • O caçador?

  • Claro! Quem mais seria?

E, novamente meu sangue gelou!

  • Onde ele está?

  • Bom, aí nós vamos ter que descobrir! Já foi muita coisa eu saber que ele tava aqui! E pára de encher!

  • Ei, você tá nervosinha, hein!

Ela rosnou! Pra mim, ela rosnou!

Ela simplesmente virou as costas e saiu, eu fui atrás, e pra acabar logo comigo ela falou de longe:

  • E seja útil!

Nós fomos até um hotelzinho barato, de quinta categoria, e pegamos um quarto.

Já lá dentro Helena só avisou que ia sair, mas antes de sair me perguntou se eu sabia usar uma pistola, eu disse que mais ou menos, e ela saiu.

Agora era muito mais fácil entrar num hotel com um homem e não mais um lobo, por isso deixamos de andar tanto só na floresta. Afinal tínhamos dormido esses dias todos no mato por causa dele, do Garras. E ele tinha se transformado em algo meio indefinido entre um lobo e um humano!

Ela chegou depois de umas duas horas com duas pistolas e uma mini-UZI.

  • Onde você arranjou essas coisas?

  • Você usa as duas mãos pra atirar?

  • Você me ouviu?

  • Ouvi, mas ignoro perguntas idiotas!

  • Como assim idiota! Minha pergunta foi pertinente!

  • Perti… O quê? Bom deixa pra lá. Foi idiota e, afinal, você sabe atirar com as duas mãos?

  • Não, por quê?

Ela só fez um sinal de reprovação com a cabeça e quase pude ler o pensamento dela me chamando de estúpido.

  • Bom, devemos dormir, amanhã vai ser uma noite e tanto!

  • E essas armas?

Ela se virou deitou na cama e dormiu! O quê eu tinha falado de tão errado?

Outro dia, outra noite.

Ela acordou com toda a disposição, carregou as armas, e tudo mais, e eu fiquei só olhando quando ela jogou a arma pra mim e eu quase tive um ataque.

Ela riu e disse que a arma estava travada e me perguntou se eu sabia realmente atirar.

  • Eu sei que precisa puxar isso aqui!

  • Bom, por enquanto é o suficiente.

Ela sorriu pra mim. Finalmente ela sorriu pra mim. Estávamos fazendo progressos!

Eu sei que falando hoje essas coisas parecem barbaridades, mas na época pareciam muito plausíveis e depois eu era uma criança, no melhor sentido da palavra.

As coisas que eu sei hoje nem se comparam com as coisas que eu sabia, então me desculpem se às vezes a história parece meio incompleta!

Hoje com certeza eu não iria atrás daquele caçador do jeito que eu fui, mas eu não estava me importando muito com a minha pós-vida. A única coisa que eu queria era ficar ao lado de Helena e protegê-la. Que ironia, eu protegê-la!

Terminando de arrumar as armas, ela levantou e abriu a porta.

  • Aonde nós vamos afinal?

  • Até uma boate aí!

19 – Uma noite na cidade

  • Como? Uma boate? E você vai assim?

  • Por quê? O quê tem minha roupa?

  • Nada eu adoro sua roupa, mas vão te barrar na porta falando que você é menor de idade e você vai fazer o quê? Mostrar sua identidade?

Ela se rendeu aos meus argumentos.

  • Tá, mas o quê você quer que eu faça?

  • Deixa eu te ajudar! Você luta bem, não? Eu sei me portar!

Ela fez cara feia pra mim. E nós saímos.

Eu só entrei na internet e em contato com meu irmão. Ele me liberou grana numa conta.

Eu simplesmente peguei meu cartão e retirei o dinheiro.

  • Vamos às compras!

Ela novamente fez cara feia.

Roupas adequadas para uma boate fina, maquiagem, saltos e cabelo. E quando eu terminei, ela parecia saída de um livro, sabe aqueles livros de vampiros em todos são bonitos e chiques, pois ela parecia uma lady.

Os cabelos ruivos presos, fazendo cachinhos, um vestido vermelho aberto discretamente nas costas e com uma fenda lateral, aquele tipo de maquiagem que faz questão de não se deixar perceber a não ser pelo belo batom vermelho, tudo contrastando com a sua pele pálida.

E eu realmente pude me vestir do jeito que eu sempre gostei, um belo terno negro, sapato muito bem lustrado, camisa de algodão azul, uma gravata de seda azul, do mesmo tom da camisa. Eu realmente estava do jeito que eu gostava. Sem contar com a rosa azul que eu fiz questão de comprar.

Vamos ao Garras, bom ele não gostou muito da idéia de colocar uma gravata, então tive de arrumá-lo da melhor forma possível, pelo menos sem que ele rosnasse para mim. Uma calça social preta, camisa vinho, um blazer e é claro, sapato.

Sabe que só naquela hora eu notei que a roupa do Garras ficava no corpo dele e nunca rasgava, e sempre que ele ia de lobo para homem ele sempre estava de roupa. O pior de tudo foi quando eu fui trocá-lo e a roupa dele, se é que uma camiseta branca e um short pode se considerar roupa, se transformou em uma tatuagem de roupa! Que mágica é essa, daqueles bichos? Voltando à festa…E para o detalhe final, um belo mustang preto. Agora sim poderíamos enfrentar frente a frente o adversário em seu covil!

A nossa chegada foi triunfal e todos os olhares estavam sobre nós. Tanto que nem mesmo precisamos entrar na fila quilométrica que estava na porta. Como se eles pressentissem que nós éramos vampiros.

Nós sentamos em uma mesa e não demorou muito para uma garçonete nos convidar para uma área mais restrita! Eles sabiam quem nós éramos!

  • Ele está aqui.- disse Helena.

Nessa área meu controle era muito maior que o dela, eu tinha o que dizer e eu sabia como agir!

Nós seguimos a garçonete por algum tempo e ela nos levou até uma espécie de balcão que existia sobre a pista de dança, e lá estavam dois senhores distintos e pálidos nos esperando.

  • Sentem-se, por favor.

Era um homem alto, elegante e refinado. Ele até mesmo puxou uma cadeira para Helena, que só faltou rosnar.

Garras se manteve de pé num canto da sala e eu me sentei ao lado do cavalheiro.

O outro era um pouco mais forte e bonito, também era alto, mas tinha uma bela massa muscular. Esse deveria ser o nosso caçador.

  • E ao quê devemos dessa visita surpreendente? – disse o mais magro.

  • A ousadia de minha amiga, assim posso dizer.

  • E que ousadia! – o caçador se pronunciou.

A cara de Helena não era das melhores e ela permaneceu calada.

  • Por favor, minha cara – o caçador chamou a garçonete – me traga o de sempre, e para os senhores e senhorita, algo para beber?

  • O mesmo que do senhor para mim. – eu disse.

  • Pra mim nada. – disse Helena.

Garras nem rosnou, nem nada, ele só permaneceu quieto no canto da sala olhando fixamente para o homem mais forte.

Helena sempre foi mesmo impaciente.

  • Vamos cortar o papo, afinal, você tem algo a dizer antes…-falando para o nosso caçador.

  • Antes que criança? – disse o caçador.

Helena se levantou, eu a segurei.

  • Calma pessoal, a coisa não é bem assim. Vamos devagar com isso, afinal temos a noite toda antes de alguém morrer.

  • E vai morrer. – disse Helena.

O senhor mais magro estalou os dedos, chamando o maitre, falou algo em seu ouvido, e o maitre saiu. O caçador sorriu.

  • Bom, nós viemos aqui vender uma informação. – eu disse isso e os todos me olharam com caras de atônitos.

  • Que tipo de informação Senhor Groher? – essa era uma conversa muito particular entre o caçador e eu.

  • Como o nome da pessoa que está te manipulando! E principalmente enganando todo mundo!

Ele deu um sorrisinho de canto de boca.

  • Você está blefando!

  • Estou? Por quê você acha que mandariam alguém como você para caçar duas pessoas como nós? O quê, um vampiro que acabou de se transformar e uma que praticamente só anda no mato?

Ele começou a me olhar profundamente. Os vinhos chegaram, e eu continuei.

  • Eu posso até prever exatamente as barbaridades que o único sobrevivente deve ter contado. – eu estava me divertindo muito – notou como só um sobreviveu? Você não se questiona por quê?

  • Eu nunca questionaria tais coisas, e depois não me importa as razões, só me interessa realizar a tarefa!

  • Então eu vou “vender” a minha informação para outros, com licença!

Eu ia me levantar quando os dois capangas na porta apontaram umas armas enormes para mim. Garras ficou mais forte, sei lá como ele fez isso, ele simplesmente transformou toda a gordura do seu corpo em puro músculo. E Helena criou garras.

  • Eu não quero que meus amigos matem esses pobres guardas, então, por favor!

  • Há há há há há, você é corajoso e espirituoso, gosto disso numa presa! Sente-se e vamos conversar. E vou lhe dizer, se a sua informação não me for convincente, vocês não saem daqui.

  • Sair, eu tenho certeza que nós vamos, pelo jeito dele ou pelo meu. – Helena tem sempre que falar.

  • Minha amiga é nervosinha assim mesmo! Mas vamos começar. Tudo isso foi o plano de um homem, um vampiro que gosta muito de poder e que faz muitos trabalhos inescrupulosos para consegui-lo. Ele me transformou especialmente para uma tarefa.

Bom eu contei a eles a minha história. Os dois me olhavam com uma cara de muito interessados. Principalmente quando eu lhes falei sobre Ariadne.

  • Bom depois disso tudo eu imagino que você deva estar pensando em sair com a minha informação e me matar, mas eu acho que isso não seria prudente, afinal eu sou a única prova disso tudo e se você puder ver minha aura vai saber que eu não menti nem omiti nada.

  • Aliás, ele se encarregou de matar um deles com suas próprias mãos. – essa revelação de Helena chocou até a mim.

  • Como? – o caçador pareceu mais surpreso que eu.

  • Ele matou o representante do seu clã com as mãos, aliás, com a bengala.

  • Bom, mas vocês mataram representantes de dois clãs na cidade e o príncipe.

  • Sim. – Helena tinha até um ar orgulho nos olhos.

  • Então vocês continuam sendo caçados, mas não mais pelo meu clã!

  • E é claro que uma proteção e intervenção pela nossa cabeça seriam de bom grado.

  • Senhor Groher você tem razão, as informações da sua cabeça são valiosas.

  • Eu sei que com a influencia e eloqüência do senhor, todos entenderão que eu estava sobre o efeito do sangue que ele me deu, e todos esses anos o quando ele enganou o conselho não podem passar em branco.

  • Claro, claro. E uma pessoa que foi tão injustiçada como o senhor não pode ficar sem vingança. Meu dever acima de tudo é proteger a verdade.

  • Eu teria uma dívida de gratidão imensa com o senhor.

Depois disso decidimos que o melhor seria sair de lá antes que ele mudasse de idéia.

20 – Nosso triunfo

Eu sabia que aquele negócio era meio arriscado, sabia que depois daquilo, nós revelaríamos onde estávamos para o conselho, mas nossa única chance de sobreviver era essa. “Se não pode vencê-lo junte-se a eles”, já dizia o ditado.

E eu temia muito mais Albert do que o conselho.

E tudo isso valia a pena porque pela primeira vez eu via admiração nos olhos de Helena, admiração para mim.

Quando chegamos no hotel eu estava tão exultante que nem notei a escuridão total do nosso quarto e só fui me tocar quando eu tentei ligar a luz e o interruptor não funcionou.

A porta fechou e eu senti uma espécie de tentáculo me erguendo pela cintura, eu tentei me soltar de todas as maneiras, mas eu sentia cada vez mais uma dor insuportável e realmente achei que aquela seria a minha morte final, quando senti a parede na minha cabeça, ou melhor, não sabia se era a parede ou o chão.

Eu estava realmente assustado, eu acho que desmaiei.

Quando eu “acordei” eu me senti diferente, sei lá, sabe, mais forte.

Depois de alguns segundos eu me vi como da primeira vez, desnorteado e todo sujo de sangue, só que dessa vez era de Ariadne.

Eu não entendi nada daquilo. Como?

Eu olhei em volta e vi Helena do meu lado chorando as mesmas lágrimas de sangue que eu um dia derramei por ela. Ela veio me abraçar quase que não acreditando que eu ainda estava vivo. Eu a abracei com tanta força quanto eu podia, e ela pela primeira vez me beijou e disse que estava preocupada comigo.

Eu sequei as lágrimas dela e a beijei e nós passamos o resto da noite assim, abraçados no meio do sangue.

Recapitulando Ariadne estava morta, aliás, aberta no meio e sem uma gota de sangue no corpo, aliás, melhor ainda, estava ali o pó que antes era Ariadne.

Nós tínhamos feito um trato doido com o caçador.

Era para termos morrido naquele dia, mas eu cedi um pequeno segredo e ele concordou que o verdadeiro inimigo não era eu, mas Albert. Isso não o impediria de tentar nos matar mais para frente.

Mas tudo isso era compensado pela felicidade que eu estava sentindo. Helena se importava comigo de verdade. Ela gostava de mim.

Mas e agora? Vamos para o próximo passo do meu plano!

O que vocês achavam, que eu não tinha um plano? Eu não sou assim “tão” burro!

Dentro disso tudo só uma coisa estava errada, o Garras.

Se ele me odiava antes, agora que Helena se “declarou” para mim, ele me odiava mais ainda.

Bom, voltando à história.

Naquela noite mesmo, nós fomos reportar ao caçador o que tinha acontecido.

Ele nos aconselhou a ficarmos naquela cidade mesmo e que ele já tinha falado com um dos membros do conselho e que eles já estavam discutindo sobre o nosso “probleminha”.

Uma semana se passou.

Helena e eu estávamos muito apaixonados e juntos o tempo todo, o que gerou algumas brigas com Garras que se recusava a ficar conosco. Claro que Helena não mudou da água pro vinho, mas ela já estava muito mais carinhosa, bom, quer dizer, do jeito dela, mas carinhosa.

O caçador entrou em contato conosco e disse que nós precisaríamos participar de um julgamento. Meu sangue gelou. Teríamos que ficar frente a frente com Albert.

Ele disse que não precisaríamos temer. Ele nos acompanharia até lá.

Ao contrário do que eu pensei Albert não nos atacou antes do julgamento e pior ele nem apareceu no julgamento.

Ele foi considerado um traidor e entrou na lista negra dos caçados. Eu fui considerado inocente dos meus crimes por ter sido iniciado por um senhor insano. É claro que os da família de Cassius sentiram um pouco de inimizade comigo, mas eles não podiam fazer nada contra mim. E a partir daí eu fiquei numa posição relativamente confortável.

Depois de tudo isso ainda faltava uma coisa.

Robbie nos mandou um, recado. Ele sabia como poderíamos pagar o pequeno favor que tinha nos dado. Mas, tem sempre um “mas”, teríamos que ir até a cidade dele, afinal ele quase nunca saía de lá. E com ar de “ultima vez que o grupo viaja junto” nós fomos até a cidade de Robbie.

21 – A última viagem

Como de usual a casa dele estava numa daquelas festas loucas que ele faz. E como sempre, nós fomos até o escritório dele sem perguntar, mas dessa vez ele estava nos esperando.

  • Vocês vieram rápido!

  • Nós queríamos resolver isso logo. – Helena se adiantou.

  • Pois é! Eu fiquei sabendo que os pombinhos vão morar juntos, agora. Então, Lucio, você sabia que Helena já foi minha amante também?

  • Como você ousa… – eu pude ver o ódio no olhar dela.

  • Ora, ousando, por quê? Vai querer me bater? Você sabe o que aconteceu na última vez que tentou isso.

Foi minha vez de entrar na conversa.

  • Não me importa o que Helena tenha feito, ou deixado de fazer. Vamos logo ao assunto, o que você queria de nós?

  • Eu? Queria apresentar um amigo meu, aliás, ele está aqui mesmo nessa sala.

Eu vi Albert num canto da sala. Mas como? Ele não estava lá antes!

  • Albert? O que você…

  • Ora cria, quem você acha que é esse cavalheiro aqui? – ele apontou para Robbie.

  • Bom, então finalmente eu conheci seu favorito.

  • Como? Favorito? Do quê vocês estão falando?

  • Bom, Helena, eu gostaria de te apresentar “Bob”, a cria favorita de Albert.

Ela ficou totalmente sem palavras.

Foi tudo rápido demais, mas vou tentar descrever o que aconteceu depois disso. Um braço negro e sem mãos saiu de uma sombra perto de Albert e puxou Helena consigo, eu só pude ver a estaca atravessando o coração dela. Eu sabia que aquilo não a mataria, mas eles fizeram isso para me torturar. Aliás, torturar a mim e ao Garras.

Albert a segurou contra si.

  • E então Senhor Indiana Jones? Vai querer me atacar?

Meu sangue ferveu, mas a única chance de salvá-la era me controlando.

  • Não. Eu só não entendo por que você foi tão burro!

  • Burro?

  • Claro! Você podia tê-la matado naquele dia mesmo, no dia que eu matei Cassiano, mas não você quis brincar com os insetos aqui, e eles comeram seu rabo!

  • Realmente, você está certo, mas nunca é tarde.

Ele retirou num movimento, que pareceu câmera lenta pra mim, a cabeça da sua bengala de dragão e acertou a cabeça de Helena, arrancando-a num único golpe. No segundo seguinte eu vi ele sendo atacado por Garras, naquela forma gigantesca dele. A luta entre eles foi violenta.

Eu não estava tão atento à luta, pois o meu propósito maior era salvar Helena, enquanto tinha tempo.

Bob fugiu, mas eu não estava preocupado com ele. Eu abri meu pulso e dei do meu próprio sangue para ela.

Enquanto isso eu vi Garras sendo levantado por um braço parecido com o que Albert fez para levar Helena até ele.

Eles estavam em pé de igualdade na luta, mas a única coisa que eu podia me importar era que não estava funcionando o meu sangue, ela não estava levantando, regenerando, nada. Aqueles minutos pareceram eternidade para mim.

Eu só fui sair daquele sonho quando Garras me levou para um lugar escuro onde viajamos até minha casa. No caminho eu só conseguia pensar no olhar de Helena quando Albert cortou sua cabeça, me pedindo ajuda. Tudo que eu pensava era que ela tinha morrido, ela tinha morrido.

Chegando em casa, eu fui literalmente jogado daquele lugar escuro. Garras chorava como uma criança, e eu estava completamente imóvel.

Ele me olhou fundo nos olhos, e eu pude notar que ele me culpava pela morte dela, mas que ele não ia me matar, por hora. Mas, eu também vi que tinha adquirido um rival e possível assassino pro resto da minha pós-vida.

Ele se foi e nunca mais o vi.

Eu fiquei imóvel durante alguns meses. Minha vida tinha sido tirada de mim e as feridas de tudo isso permanecem latentes. Hoje eu não sou mais aquele vampiro que eu era, não confio mais, não amo mais, não choro mais, não vivo mais. Eu aceitei minha condição de sugador, monstro. Não tento mais ser humano, não tento mais amar.

A vida é bem mais fácil se as pessoas assumirem quem são. E eu assumi a minha condição, a de monstro.

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