Às Mãos do Acaso
É muito estranho lembrar como tudo começou, justo hoje que eu vou morrer. Não me sinto nem um pouco desconfortável em dizer isso, é o que eu quero agora e é o que eu vou fazer, mas sempre achei que toda essa história não seria em vão.
Por isso estou escrevendo essas linhas, para a primeira pessoa que encontrar saber que eu existi e talvez outras pessoas mais.
Eu vivi por um amor e é ele que me trouxe aqui hoje, antes dele tudo era estranho, sempre senti que faltava algo para me completar. Minha vida começou quando o conheci por isso vou começar a história de lá.
Eu tinha apenas 17 anos quando meu pai, um senhor classe média e conservador, convidou um suposto “cliente” para jantar em casa.
Era janeiro e particularmente quente naquela noite, eu havia acabado de passar no vestibular, por isso não via a hora de poder sair de casa e me encontrar com meus amigos, além é claro, do meu namorado.
Eram exatamente 8 horas da noite quando o estranho chegou. Como era bonito! Mesmo no calor ele estava usando terno e não havia uma única gota de suor em seu rosto. O contraste da sua pele clara e seu cabelo escuro me fascinava e eu simplesmente não conseguia tirar os olhos daquele homem lindo de olhos verdes, que aparentava uns 25 anos no máximo.
Quem diria que essa imagem permaneceria em minha memória depois de tantos anos.
Minha mãe o convidou para sentar e ofereceu um licor, logo meu pai a olhou fixamente como se estivesse reprovando a atitude dela, na hora eu não entendi o porque.
Durante o jantar meu pai reprovou muitas vezes minha mãe, demonstrando como aquele homem era importante.
Ele não tirava os olhos de mim e a luminosidade que saia deles parecia estar me consumindo de admiração, até aquele momento eu nunca achei que uma sensação como aquela era possível.
- Desculpe senhor, mas como é mesmo seu nome?
- Thomas, senhorita…?
- Juliana somente.
Aquele pequeno trecho de conversa foi observado atenciosamente pelo meu pai que parecia estar com medo.
Não falei mais com Thomas durante o jantar em que, aliás, ele comeu muito pouco.
Quando foram 10 horas da noite Thomas decidiu se despedir dando adeus para meus pais, mas quando se inclinou para beijar a minha mão disse apenas um “até logo”.
Essas duas palavras foram suficientes para que meu corpo estremecesse inteiro, eu sabia que o veria novamente e logo.
Foi tempo o suficiente dele sair com o carro para que eu já fosse para a rua esperar meu namorado, mas antes de sair meu pai me abraçou bem forte, coisa que ele nunca fazia. E antes de me despedir e sair, juro que vi uma lágrima sair dos olhos dele.
Eu me diverti muito naquela noite, mas de alguma maneira eu não conseguia tirar Thomas da minha cabeça.
Perto das 3 horas da manhã eu pedi para meu namorado me levar para casa. Estava muito cansada e decidi que queria ir embora.
No caminho de casa um carro começou a nos seguir, dando luz alta, e batendo atrás do carro. Eu comecei a me desesperar e meu namorado estava muito nervoso, quando o carro emparelhou com o nosso, e eu pude ver que era o Thomas que estava dirigindo. Eu não entendi nada do que estava acontecendo.
Mas antes deu conseguir pensar Thomas jogou o carro dele contra o nosso. O acidente só não foi pior porque eu estava com o cinto de segurança, mas mesmo assim eu senti uma dor profunda no peito, mas num momento antes de desmaiar eu ainda pude ver Thomas se debruçando sobre o corpo do meu namorado.
Logo que acordei procurei pelo meu namorado, mas tudo que pude ver foi um armário embutido numa parede de pedra e duas portas. Eu fiquei completamente desesperada por não saber onde estava ou o que tinha acontecido comigo.
Olhei para os lados e para mim mesma e vi que na verdade o quarto parecia velho, mas extremamente luxuoso. Digo isso por que os lençóis da enorme cama de casal eram de seda, assim como a camisola que eu estava usando. Ao lado da cama eu pude ver uma cômoda, velas por todos os lados.
O lugar tinha um pé direito enorme apesar de não possuir janelas, nem nenhum tipo de luz natural. As únicas luzes eram providenciadas por velas e até onde eu pude ver uma espécie de luminária na parede.
Eu levei uma das velas até uma dessas luminárias e acendi a ponta, o quarto pareceu se iluminar e me vi sozinha.
É estranho para mim lembrar desse sentimento,que eu realmente estava sozinha e era como se o mundo tivesse acabado,e por um momento eu nem me preocupei com sair dali, era como um sonho de princesa, era isso realmente que eu sentia, como uma princesa aprisionada das histórias da carochinha.
Fui até a outra luminária e também acendi deixando o quarto o mais iluminado possível e voltei a minha atenção para as duas portas. O que teria atrás delas?
Com muito receio fui até uma delas e abri revelando um banheiro no mesmo estilo do quarto, além de uma grande banheira de louça branca. A pia era de mármore branco também. Tudo bem, a primeira eu já havia decifrado e a outra ainda era um mistério.
Nesse momento eu fiquei até feliz, a outra só podia ser a saída!
Mesmo tremendo coloquei a mão na maçaneta e quando tentei abrir, vi que a porta estava trancada.
- A única coisa que mudei nesse quarto desde que o adquiri.
A voz de Thomas veio de trás de mim, estava sentado numa poltrona de couro ao lado da cama. Nunca tinha ficado com tanto medo em minha vida.
- Me solta!
- Calma menina, o que aconteceu?
- Como assim? Eu estou presa e quero sair agora!
- Eu acertei dessa vez, você fala como ela.
- Seu maníaco! Que ela? Do que você está falando?
- A tranca era para dentro antes, afinal esse quarto não era projetado para isso…
- Você me prendeu
- … mas, devido às circunstancias eu tive que mudar…
- Que circunstancias maluco!?
- Mas senti realmente uma pena fazer isso.
Eu não agüentei o tom de ironia dele e parti para cima daquele maluco.
Antes mesmo deu conseguir chegar até ele, senti o macio de suas mãos me tocando suavemente nas costas e me segurando enquanto me beijava o pescoço.
- Você fica linda brava desse jeito.
Eu fiquei imóvel de desespero e desejo, ao mesmo tempo que eu tinha muito medo, eu tinha muita vontade de beijar aquele homem.
- Infelizmente, você não pode comigo, menina. Se eu te soltar, você promete se comportar?
- Eu nunca vou me curvar às tuas vontades.
Com um ar extremamente irônico ele disse rindo:
- Que bom!
Ele me soltou e deu duas palmas, em menos de 10 segundos a porta se abriu.
- Pense bem garota, eu volto aqui amanhã. E se eu fosse você, eu me trataria muito bem.
Ele saiu deixando um vazio depois dele.
Não consegui me conter, agüentar a barra e chorei, chorei muito. E adormeci daquele modo.
Não faço idéia de quanto tempo eu dormi, aliás ali dentro não se sentia o tempo, era como se o tempo ficasse fora e eu estivesse numa espécie de limbo.
Eu assutei com batidas na porta e um pedido de desculpas de uma moça com uma maletinha.
- Desculpe-me senhorita, mas eu fui envia aqui para auxiliá-la em tudo que a senhorita necessitar.
- Eu preciso sair daqui.
Eu disse isso com algumas lágrimas rolando.
- Eu não posso senhorita. Mas a senhorita vai gostar daqui, eu posso fazer seu cabelo, suas unhas, posso providenciar todas as roupas que a senhorita quiser…
- Calma, vai com calma, não entendi. E depois pra começar pode me chamar de você ou de Ju.
- Então senhorita Ju o que você gostaria de fazer hoje?
- Nada.
- Como assim nada. A senhorita deveria fazer alguma coisa.
- Mas não quero.
A moça começou a chorar desesperada.
- O que foi?
- Eu preciso fazer alguma coisa ou entreter a senhorita ou ele me mata!
- Ele quem?
- O senhor Thomas.
Eu tive pena dela.
- Que monstro.
- Mas o que a senhorita pedir, ele faz.
- Tudo bem então, eu peço por você. Mas como é mesmo seu nome?
- Inês, senhorita Ju.
Depois desse momento eu até relaxei um pouquinho e deixei a menina fazer minha unha.
Mas afinal quem era aquele homem, ou o que era ele? Como alguém poderia ser tão mal ou cruel daquela forma? O que ele queria comigo?
Eu mal conseguia respirar pensando nisso tudo.
Quando a menina terminou a unha ela me mostrou a enorme quantidade de roupas maravilhosas que estavam no guarda- roupas.
- E todas do seu tamanho!
Ele sabia que iria me seqüestrar muito antes daquele dia fatídico.
Fiz questão de não me vestir como ele queria, bonita. Nem tomei banho. Se ele queria jogo teria um jogo comigo.
- Que coisas você fez hoje?
- Não é da sua conta!
Ainda pude ver um sorriso nos lábios daquele demente.
- Como está rebelde hoje. Acho que seria bom que você visse uma coisa.
Ele bateu palma duas vezes e pediu que lhe fosse trazida uma criada.
Eu vi entrar pela porta uma linda garota loirinha dos olhos azuis, vestida com uniforme preto, avental de babadinho e cabelo amarrado no topo da cabeça.
Ela tremia muito com as mãos entrelaçadas e nervosas.
- Calma menina venha cá. Qual é mesmo o seu nome?
- Antonia, senhor.
- Bem Antonia, você tem um sonho?
O ar se encheu com aquela musica suave e inocente dos anos 50. Thomas tomou a menina em seus braços e começou a dançar.
Eu permaneci apenas como espectadora daquele espetáculo macabro.
O corpo dele se movia com uma leveza inimaginável e de forma tão sedutora que até mesmo eu que estava olhando tive vontade de levantar e dançar, mas permaneci olhando.
Ele passava as mãos por todo o corpo da menina que estava completamente entregue a ele. Onde tudo aquilo ia chegar?
Os beijos que eles trocavam eram tão ardentes que eu mesmo tive vergonha por eles, quando lentamente ele começou a tirar a roupa dela e num só movimento a jogou na cama, eu não queria olhar, mas também não conseguia tirar os olhos.
A menina já estava nua quando eu descobri quem realmente Thomas era, ele olhou fixamente para mim e em sua boca eu vi crescer dois caninos que logo depois foram cravados nos seios da pobre menina que só pode responder com um grito surdo e a morte.
Agora eu sabia o que era ele.
- Agora descanse princesinha.
E ele se foi.
Eu sabia do fundo do meu coração que iria morrer.
Mas não morri, não naquele dia. Como vocês sabem eu estou aqui escrevendo isso, mas a sensação foi de morte, uma coisa horrível.
Você já sentiu a morte te espreitando, te seduzindo? Pois foi exatamente assim que eu me senti. E eu estava disposta a não deixar que isso acontecesse.
Eu não podia dormir na minha cama, não depois daquilo tudo que tinha acontecido nela. Aquele sádico ainda deixou a menina morta ali durante umas duas horas mais ou menos.
Durante esse tempo eu fiquei esperando que a menina levantasse e me mordesse também, mas isso não aconteceu. Ela não virou uma vampira.
Você já viu um corpo? O misto de medo e curiosidade. Quase cheguei a tocar o corpo, mas não consegui. Fiquei com medo.
Quando vieram levar eu nem me movi, mas também não chorei. O que foi muito estranho, vocês podem até me chamar de insensível, mas de certa forma, eu gostei e isso me assustou muito.
Agora eu sabia o que ele era, mas não sabia o que fazer.
Decidi ceder. Comi da comida que uma das criadas me trouxe, tomei um bom banho, me arrumei com um dos vestidos que estava no guarda-roupa e esperei até ele chegar.
Lá dentro eu comecei a marcar o tempo como se ele viesse todas as noites e assim eu sabia quanto tempo se passava.
Nessa noite ele pareceu satisfeito com o jeito que eu me vesti.
- Agora podemos começar.
- Começar o quê?
- Ora, você realmente acha que eu tive todo esse trabalho para simplesmente matá-la?
- Você vai pedir resgate para o meu pai?
- Não me faça rir menina, foi seu pai que me deu você. Em troca das suas dívidas, claro.
Eu não sabia se o que ele dizia era verdade ou não, mas eu desconfiei daquela história toda.
- Eu sei que você não acredita em mim. Tudo bem o quê eu quero com você é outra coisa.
- Então o quê você quer de mim afinal?
Ele ficou em silêncio por um tempo, com o olhar distante e um ar de melancolia. Ele pegou uma foto que estava dentro do bolso do paletó e me mostrou.
Era uma foto muito antiga de uma moça que era eu. Quer dizer parecia muito comigo, mas ela vestia roupas do início do século XX. Aquilo tudo era muito estranho.
- Tudo bem, mas o quê você quer de mim?
Ele se levantou, ficou de costas para mim.
- Eu quero viver o amor que eu não pude quando estava vivo.
- Mas eu não sou essa moça! – eu já estava impaciente.
- Vai ser.
- Você tá louco.
- Não! – ele parecia estar furioso. – Você vai ser ela nem que eu tenha que deixar você trancada aqui pelo resto da sua vida!
Ele saiu batendo a porta.
Eu não sabia o que iria acontecer comigo, mas definitivamente eu não iria bancar o papel de outra moça.
Pensando nessas coisas eu caí no sono.
Quando acordei havia um diário no travesseiro ao lado. Era um belo caderno com capa de couro e perfumado. Olhei para os lados e não vi ninguém. Então comecei a ler.
Ele começava em 13 de Janeiro de 1901, exatamente 100 anos antes do dia em que eu fui seqüestrada.
Ela tinha 17 anos, como eu, e começava escrevendo assim:
“Antes eu não tinha por quê escrever, mas hoje eu conheci o amor da minha vida, seu nome é Thomas.” Ela descrevia como esse moço, que era um excelente partido, tinha sido convidado por seu pai para jantar. Eu fiquei chocada com tudo aquilo, mas não conseguia parar de ler.
Ela era uma moça de uma boa família e era noiva quando conheceu Thomas. Ele era extremamente galanteador e bonito. Eles se encontravam as escondidas. Porém eu notei que ele ainda não era um vampiro, ele podia amar e amava essa mulher com todas as forças do seu coração.
O almoço chegou e eu dei uma pausa para comer.
- Inês, como você começou a trabalhar para Thomas?
- Ora, senhorita, eu era uma menina muito pobre e procurando por emprego, ele tinha emprego para oferecer e só.
- Faz quanto tempo?
- Já vai fazer uns 20 anos.
Eu olhei para ela que não aparentava mais que 22 anos.
- Você também é uma vampira?
- Não, senhorita, eu me alimento do sangue do mestre, por isso eu fico assim. Mas só uma vez por mês.
Quando ele chegou já estava arrumada, e ele sorriu.
- Posso pentear seu cabelo?
Eu não entendi o por quê da pergunta mas concordei. Sentei na cama e fiquei de costas para ele, que penteou meu cabelo como se estivesse passando a mão no cabelo de um anjo.
Eu nunca tinha sentido tamanho amor em um só toque.
- Eu tenho um presente para você. – ele disse quando terminou de pentear meu cabelo.
- O que é? – eu parecia uma criança.
Ele colocou um frasco de perfume em cima do criado-mudo. Eu sabia que era o perfume dela. Estendi a mão para pegar o frasco.
- Você pode manter as pessoas vivas por muito tempo com seu sangue, não é mesmo?
- É.
- Faça isso comigo.
- Não.
- Porquê?
Ele se irritou.
- Eu também quero viver para sempre.
- Mas não pode ser assim.
- Mas afinal, do que adianta você me manter aqui se eu vou morrer um dia?
Ele foi embora. E eu fui dormir.
Quando acordei continuei minha leitura.
Eles se amaram muito, até que o casamento dela estava perto. Eles decidiram fugir. Afinal, ele tinha dinheiro o suficiente para isso. Porém na noite marcada ele não apareceu.
Ela ficou esperando durante vários dias, até que numa noite ele foi visitá-la em seu quarto. Isso foi a última coisa que estava escrita.
Quando ele chegou, eu estava com o perfume dela.
- O que aconteceu? – eu não agüentava mais de curiosidade.
- Aconteceu aonde?
- Na noite em que você foi visitá-la, na ultima página?
Eu desarmava todas as defesas dele, eu sabia.
- Você quer mesmo saber?
Eu me ajeitei na cama.
- Eu ofereci a imortalidade para ela, ao meu lado. Ela recusou. Quando soube da minha real situação, ela não agüentou de dor e se matou. Foi isso.
Seus olhos se encheram de um líquido vermelho, que escorreu pelo seu rosto. Thomas chorava sangue, se é que se podia chamar aquilo de chorar.
Nesse dia eu não ousei fazer nenhum tipo de comentário maldoso e deixei que ele lavasse meus pés. Apesar de tudo eu não conseguia mais vê-lo como monstro.
Ele queria o seu amor de volta, mas eu nunca poderia perdoá-lo por ter me seqüestrado. Não daquela forma, com violência e tudo. E afinal, ele continuava um monstro, com o mínimo de sentimentos, mas um monstro.
Eu estava ali presa. Não tinha chance de sair ou ver a luz do sol ou o mundo, tudo isso me fazia muita falta. Porém, uma coisa eu tenho que confessar, meu sentimento por ele já não era só ódio, mas estava longe de ser amor.
Eu sentia uma ternura incrível.
Todos os dias ele vinha, me dava um presente relacionado a ela e me fazia carinho. Eu deixava.
Não sei porque exatamente eu deixava, tinha vezes que ele chorava e eu comecei até mesmo a ficar ansiosa pela sua visita.
Numa noite ele chegou com o colarinho sujo de sangue, apenas deitou no meu colo e dormiu. Foi a primeira vez que nós dormimos juntos, coisa que voltaria a acontecer muitas vezes ainda.
Depois desse dia ele perdeu o cinismo comigo.
- Thomas, se você quisesse poderia parar de beber sangue?
- Não. Eu morreria.
- Mas você já não está morto?
- Morreria de vez, sabe, a morte final.
- Como você pode fazer outros de você?
- Pare com esse interrogatório, eu não quero que você saiba nada sobre esse mundo cruel que eu vivo. Quero que você seja pura, humana. Quero você pra mim.
Eu senti um aperto no coração.
- Você sabe que não pode trazê-la de volta, não sabe. Eu nunca serei ela, nem que eu tentasse. E se continuar a me manter presa, EU nunca serei sua.
Eu mesmo me assustei com a minha resposta. No fundo eu queria ser dele. Ele se foi, mas dessa vez, não bateu na porta.
Três meses depois que eu havia sido seqüestrada, ele entrou no meu quarto e não disse nada e me deu um ursinho de pelúcia que reconheci logo de cara. Era o meu ursinho de estimação.
Mas, ele só me dava presentes relacionadas a ela, será que ele estava ficando doido? Ou será que estava me confundindo, confundindo as nossas vidas.
Eu gostei.
Cada dia ele mesclava os presentes, e aquilo estava ficando cada vez mais estranho.
Numa manhã Inês disse que eu deveria me vestir com a melhor roupa do armário e esperar Thomas, pois iríamos numa festa. Ela me ajudou a escolher e no final eu estava linda, como nunca pensei que poderia estar.
Ele chegou com o seu melhor terno e me chamou para fora. Isso mesmo, eu iria sair do quarto onde (pelas minhas contas) eu havia passado 6 meses. Vi como era a casa, aliás, uma mansão. Havia até mesmo um elevador para descer no meu quarto.
Chagando lá fora, eu vi a lua. Ela estava mais linda que em meus sonhos, e fiquei fascinada. O mundo era lindo. Estar fora era maravilhoso.
Quanto tempo eu havia perdido? Quanto da minha vida?
Olhei para Thomas e senti ternura.
Entramos no seu carro luxuoso, decidi que não vou fazer propaganda agora, mas era um carro lindo e caro.
- Onde vamos? – perguntei.
- Vamos caçar. Você não queria ser uma vampira? Viver para sempre? Então vamos provar o gostinho da caça.
Eu senti que ele dizia isso com amargura.
- Escolha alguém na rua. – ele me disse – será a nossa vítima de hoje.
Resolvi que se aquele era meu destino eu o abraçaria.
Escolhi uma moça que estava parada num bar, parada no acostamento.
Não foi muito difícil que Thomas convencesse a tal menina a entrar no carro.
Ele nos levou a um restaurante chique, comemos e nos divertimos. No final da noite fomos até um parque e lá Thomas tomou a menina em seus braços e sugou sangue o suficiente para assustá-la.
- Hoje você vai morrer – disse com os caninos a mostra.
Eu já tinha visto Thomas sugando alguém, mas ali ele parecia um predador, me deu medo.
A menina correu.
- Vamos, Juliana, vamos pegá-la? Não era isso que você queria, ser assim… Um monstro.
Ele estava dizendo aquilo para me intimidar, a muito tempo eu não sentia aquela sensação de morte perto dele, onde estava aquele cara legal, que me fazia carinho?
Ele saiu correndo com sua rapidez vampírica e foi muito fácil pegá-la de volta.
Seu pescoço estava sangrando e ela gritou.
“É essa vida que você quer, Juliana?”
“Não, não é…. Eu quero continuar normal, quero ir pra casa.”
Nesse momento eu já estava chorando copiosamente. Ele largou a menina e cravou os dentes no meu pescoço.
Acordei em um hospital, com meu pai e minha mãe segurando a minha mão. O que havia acontecido?
Meus pais me explicaram que eu havia desaparecido e depois sido entregue na porta daquele hospital. Eles não sabiam da minha aventura.
Até que olhei dentro dos olhos de meu pai, ele sabia. Ele havia me vendido para o monstro. Ele achava que eu estava morta.
Quanto a minha vida depois disso? Bom, entrei numa faculdade, perdoei meu pai, mas nunca esqueci a grande aventura da minha vida. Nunca pude esquecer.
Hoje, depois de ver todas as coisas ruins que existem no mundo, decidi voltar. Decidi que a minha vida tinha sido aqueles 6 meses, e que lá fora era muito pior do que ali dentro daquele quarto. E em toda a vida, eu descobri que Thomas foi o grande amor da minha vida.
Depois de 5 anos do dia do meu seqüestro, eu voltei até a casa, o dia em que eu decidi morrer. Morrer para estar com ele.
Quando cheguei, quase não consegui reconhecer. A casa estava em ruínas, tive medo que ele estivesse ido embora.
Passei por muitos mendigos espalhados pelo casarão e consegui, depois de tudo encontrar o elevador, que ainda estava funcionando.
Quando desci, vi a pior cena da minha vida. Thomas deitado em minha antiga cama, quase abraçando a morte final.
Quando ele me viu, conseguiu sorrir.
- Você voltou para mim?
- Claro meu amor!
- Você era exatamente a última coisa que eu queria ver, antes de morrer.
- Seu louco, há quanto tempo você não suga sangue?
- Desde que você se foi. O seu sangue era a última coisa que eu queria sentir em meus lábios, mas descobri que morrer demora muito – ele deu uma risadinha.
Quase não conseguia falar, mas ainda pode dizer antes de realmente tudo acabar.
- No final…. era você que eu amava… não ela…
Chorei, mas fiz um ato de amor, cortei meu pulso e dei meu sangue para ele! A cor voltou aos seus lábios e seus olhos se abriram.
Ele não entendeu o porquê. Eu disse que foi por amor.
Para me salvar da hemorragia ele me transformou em um deles.
Resolvi escrever tudo isso para dizer que o amor pode ser de várias formas, é um grande mistério.
Quando vocês estiverem lendo eu já vou ter tido a morte final, decidimos que aquela vida imortal era pra quem não podia amar, pelo menos não como nós nos amávamos, e resolvemos então nos entregar ao sol.
Adeus a todos que lerem essas humildes páginas, não sei se vou para o céu ou para o inferno, isso pouco importa. A única coisa que importa é que vou com Thomas.